A Mãe Agridoce

 

 

 

    Dizem que os opostos se atraem. Preto e branco, amor e ódio, gordo e o magro, e por aí vai. Na maternidade e, especialmente com gêmeos ou múltiplos, a ambivalência  está muito presente: alguns sentimentos amargos e outros doces. 

 

    Miscelania de emoções passam pela mãe de gêmeos e muitas vezes, tudo isso começa antes mesmo da concepção concreta dos filhos. As inúmeras tentativas de tratamentos de gravidez, se sujeitar a uma bateria de testes, de remédios. Desespero amargo com doce esperança em alcançar a notícia tão desejada do teste “HCG Positivo”.  

 

    Chega a vez da descoberta, não é um, mas dois, três ou mais!! Muita emoção, que felicidade!! Vitória, triunfo... um brinde! Mas por outro lado vem aquele “frio na barriga”. Medo do que está por vir, do que vai acontecer, como vai ser a gravidez, como o corpo vai se transformar. E assim a gestação dá sequencia, com muita monitoria, acompanhamento de profissionais, cuidado alimentar e repouso. Ah, repouso! Como seria bom se fosse opção. Mas muitas vezes não é, a grávida tem que ficar ali, sem ter o que fazer, só para dar mais margem para um “banquete” de pensamentos! "E se nascer antes do tempo?" "E se eu não aguentar o peso?" "E se estiver sem ajuda?". Paneladas de "E se, e se" que não tem fim, mas que pode dar uma amortecida com a doce lembrança que o sonho está para se realizar, basta ter paciência. 

 

    Nascem os bebês, muitas vezes “antes da hora”, o que geralmente significa que são pequenos, e que precisam da UTI para monitorá-los e ajudá-los nessa fase a se desenvolverem melhor. É alegria em conhecê-los, e desapontamento em vê-los ali, tão pequenininhos, longe de seus braços e de seu aconchego. 

 

    Alta hospitalar! Muitas vezes, apenas um. Eles vão precisar se separar. Junto, o coração da mamãe também se corta ao meio, um pedaço fica na UTI e outro com o bebê que vai para casa. Preocupação com o que ficou, adaptação com o que será apresentado a sua casa. 

 

    E a vida continua, conforme eles crescem, dificuldades e satisfações se confrontam. O “caldo” vai engrossando e se transformando. É sentir prazer em estar com eles, admirá-los, e por outro lado, angústias em achar que não está dando conta o suficiente, culpa por achar que não está sendo justa dividindo o tempo e atenção igualmente.  

 

    Enfim, cada uma vai compor uma história, parecida com essa ou não, ser mãe de múltiplos requer muita sabedoria, paciência, perseverança, bom-senso, altruísmo, benevolência, sem deixar de ser humana, com seus momentos de tristeza, dúvidas, negação, medo, pudor. Essa química de ingredientes é o que dá "liga" para a "fermentação" crescer conforme o tamanho e a fome de cada família.  É ser inteira, com sua força e suas fraquezas. O "agridoce" tem sua beleza peculiar por ser intenso para os dois opostos, resultando em um delicioso sabor. Passar pela experiência amarga contribui para a mobilização de recursos que estavam desconhecidos ou adormecidos, fortalecendo a mulher ainda mais a lidar com as dificuldades. Ao mesmo tempo, saber reconhecer a doçura da vida requer paladar apurado e só quem conhece o amargo consegue valorizar as nuances do doce. 

 

   Saboreie o seu dia, os seus filhos, sua família e sua vida! Feliz dia Das Mães! 

 

 

Liana Kupferman é Psicóloga Clínica especializada no tema gemelaridade que pesquisa há mais de 10 anos, além de ser autora do estudo: “O Relacionamento dos Irmãos Gêmeos ao Longo do Ciclo Vital”. – PUC SP.

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